Dona Arlete estava com as mãos na massa, preparando o bolo para o aniversário da bisneta de 15 anos. Foi quando ouviu o comentário de um jornalista sobre uma notícia que a deixou chocada. Um homem assassinado na Bahia por divergências políticas, e o jornalista dizendo que essas coisas acontecem.

Dona Arlete sentou. O homem do rádio continuou noticiando outras coisas. Ela ficou com a imagem paralisada. Dona Arlete viveu a ditadura, chorou o desaparecimento do filho de uma estilista que ela conhecia. Acompanhou mães que imploravam para que os filhos não saíssem às ruas, que não enfrentassem o sistema. Que era perigoso.

Dona Arlete participou de um ou outro comício das "Diretas já", festejou a volta da democracia, votou em partidos diferentes nas eleições, sempre escolhendo quem ela considerava melhor para administrar sua cidade, seu estado ou seu país, livremente. Mas matar alguém por discordar é coisa com que ela não concorda. Depois do susto da notícia e do comentário, ficou com raiva. Como um jornalista vulgariza a morte de alguém? Como? Pensou um pouco. Disse para si mesma que não iria permitir que a raiva a dominasse.

Respirou fundo. Voltou a preparar o bolo. Lembrou do marido, morto há muito tempo. Lembrou do quanto ele temia a intolerância. O marido teve o pai morto na guerra. Fugiu com a mãe. Filho de judeus, ele contava aos filhos como era doloroso imaginar o que o seu pai sofrera, o que o seu povo sofrera. Amava o Brasil por ser uma terra de acolhimentos. Dizia aos amigos que essa terra era abençoada por Deus, não apenas pelo clima, pela água em abundância, mas pelo povo que não era adepto a preconceitos. No Brasil, dizia o marido de Dona Arlete, pode ser dessa ou daquela religião, nascido nesse ou naquele lugar, torcer para um ou outro time, ser dessa ou daquela escola de samba, gostar mais desse ou daquele governante. No Brasil, tudo é paz.

Enquanto mexia a massa para o bolo, os olhos de Dona Arlete teimaram em derramar lágrimas. As lágrimas são um presente do Criador para nos lembrarmos da beleza dos sentimentos. Tem saudades do marido. Tem preocupação com o amanhã.

Filhos, netos, bisnetos. Dona Arlete já viveu muito e, por isso, é agradecida a Deus pelo dom da longevidade. Mas quer viver mais. Diz sempre que, se depender dela, prefere ficar por aqui, embora acredite que há um outro lugar lindo que abraça os que se vão. Deus não nos faria para acabarmos e ponto. É o que ela diz. Mas não tem pressa.

Dona Arlete muda a estação do rádio. Não quer ouvir o jornalista mais. Prefere uma música. Uma música calma para acalmar os seus sentimentos. O bolo vai ficar lindo, a festa também. A bisneta merece.

Enquanto pensa isso, fecha os olhos e reza do seu jeito. Pelo Brasil. Pelos brasileiros. Que uma luz ilumine os que andam encobertos pela raiva. Ela nunca viu nenhum país saindo de crise nenhuma com ódio.

Dona Arlete é uma mulher que ama amar, por isso gosta tanto de viver.

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia - RJ) | Data: 14/10/2018

Sebastiana é uma mulher de poucas palavras. Aprendeu que só se fala o necessário. Não gosta de opinar sobre a vida das pessoas, acha um desperdício de tempo e de energia. Gosta das suas coisas e dos seus amigos, ou melhor, dos seus amigos e das suas coisas. Não tem muitos amigos porque é da crença de que um amigo merece atenção especial. Se necessário, passa horas ouvindo alguma dor que incomoda um amigo seu. E, depois, diz o que deve ser dito, pensado, refletido.

Sebastiana acordou, tomou o café que ela mesma preparou e buscou na penteadeira a colinha que fez para levar até o colégio em que vota. São muitos cargos, muitos números diferentes, levar anotado facilita a vida, decide ela.

O voto de Sebastiana é dela. A escolha, ela não terceirizou. Ouviu comentários daqui e dali. Ficou surpresa com os xingamentos. Achou desnecessária a quantidade de brigas pessoais ou pelas redes novas que criaram para unir as pessoas.

A praia é sempre um convite para um mergulho nas delicadezas da natureza.O caminhar contemplativo, o molhar os pés, acompanhados de outros pés ou não, o preencher o corpo com o sal que sobe e desce, que vai e vem, o deitar para esquecer ou desejar, o que foi ruim ou o que há ainda de surpreender. É assim o mar, com os mistérios de tantas vidas que se encontram, democraticamente, em suas águas.

Quem são as pessoas que vão e vem e que aproveitam uma pausa para respirar? Deveria ser lindo. Inda mais em um dia de sol. Mas nem sempre é. Pessoas são mais complexas do que as águas salgadas ou do que as areias que se deixam banhar por elas.

Era, então, um dia de sol. E o movimento trazia ondas de pessoas pela rua, pela calçada, pelos quiosques de alimentação. Foi quando vi uma briga. Não dessas assustadoras de arrastões. Não das que envolvem armas de fogo.Eram dois namorados. Penso eu. Jovens, ainda. Ele parecia ter se excedido na bebida, ela parecia disposta a revidar à altura.

E começaram a gritar. Algumas crianças correram assustadas. Faziam tranquilamente seus castelos de areia quando ouviram a deselegância. Um senhor tentava intervir. Ela ameaçava bater nele com uma garrafa vazia de alguma bebida. Ele gritava alto dizendo que sabia que ela o traía. E usando palavras pouco adequadas para quem diz amar.

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