A aluna pediu ao professor que revisasse sua prova. O professor o fez. Sentou-se com ela e foi explicando a razão de uma nota que não era, de fato, desprezível. Com os erros devidamente apontados, a menina, aluna universitária, olhos lacrimejantes, começou a manear a cabeça, reprovando a si mesma. O professor quis entender a razão daquela dor: "Oito é uma boa nota. E as notas são instrumentos que nos ajudam a perceber erros e acertos, evoluções. É um diagnóstico, apenas. O que houve? Por que essa angústia?"

A jovem sentiu confiança. Era a primeira prova daquele professor que ela admirava. Com a manga da blusa, enxugou os olhos. Claudicante nos termos, explicou sem explicar: "Meu pai".

O professor esperou algum complemento. Depois de uma pausa mais prolongada do que o necessário, insistiu: "O que tem o seu pai?"

A menina olhou para algum lugar que, certamente, seria o lugar do desconforto e voltou a lacrimejar. O professor esperou. Não perguntaria mais. Era preciso respeitar os sigilos daquele sentimento.

Ela, entretanto, prosseguiu: "Meu pai diz a todo mundo que eu tiro 10 em todas as provas, foi sempre assim, ele vai ficar decepcionado".

Lá estava ela, a árvore gigante, a que guarda segredos e sabedorias, a que enfrenta as intempéries e continua crescendo, a que não se apressa a não ser para não desperdiçar os tempos da infância. Sim, ela, a árvore, gosta das crianças. Ela as vê com raízes de esperança. Ela as aguarda com sombras preciosas para o tempo do aconchego. E com elas conversa.

Era um dia de sol, de sol forte, e meninas e meninos estavam ali, deitados perto da boca do gigante Baobá. Sim, porque quem sabe das lendas e dos ditos antigos sabe que Deus criou primeiro o Baobá; depois, as outras árvores; e, por uma dessas razões que não vêm ao caso, virou o Baobá de cabeça para baixo. As raízes veem o infinito, e a boca pode sussurrar preciosidades aos que têm ouvidos de ouvir.

O Baobá começou por dizer que era bom estarem juntos. Crianças não devem viver sozinhas. Isolamentos nos levam a lugares perigosos. Sabe, a gigante árvore, que a conivência é o fio de beleza que nos liga à Luz primeira que nos gerou. Geradores de felicidade dependem dessa energia. Sozinhos nos apagamos. Sozinhos nos amedrontamos e, por vezes, desistimos.

As crianças ouviam atentas. Estavam juntas porque brincavam de viver. Brincadeiras tantas que desenvolviam suas inteligências e que acendiam seus sorrisos. Corriam, caíam, levantavam. Sujavam-se em terra boa. E mergulhavam em um rio de delicadeza que ficava bem ali ao lado, desfrutando parte dele, da sombra do gigante Baobá.

Foi quando o gigante aproveitou o rio para dizer das águas que não paravam. Do curso necessário. Dos instantes que se renovam. Das surpresas que virão. Uma das crianças quis saber se seriam boas as surpresas. A explicação lançou sementes em terra fértil. Algumas, sim. Outras, não. Tanto umas quanto as outras passarão como passa a água corrente do rio.

Fiquei olhando para Luiza e bebendo as gotas de amor que caíam de seus ditos. Falava ela sobre a mulher. Sobre o sofrimento da mulher e sobre as esquisitices de quem não se incomoda. Falava que a verdade era mais fácil de ser empunhada como bandeira do que a mentira. Dava menos trabalho. Falava de seu avô, que dava conselhos em um interior de seu país. Havia gente e mais gente que se aproximava do velho e que jogava seus queixumes querendo uma opinião. Ele dizia que iria dormir com o problema e, na manhã seguinte, diria o seu achado. Era quando a avó de Luiza iluminava o marido e explicava a ele o que era o melhor para a vida de quem aguardava a resposta. A sábia era a mulher, mas deixava o homem brilhar. Eram tempos outros. Fiquei olhando para Luiza Diogo, a primeira mulher a assumir o cargo de primeira-ministra de Moçambique e descansei dos meus dissabores com o ser humano. Há muita perversidade por aí. Mas há Luizas que dignificam a natureza humana.

Moçambique é um entre tantos que cederam seus filhos para construir o país que somos, o nosso Brasil. Os construtores sofreram, entretanto.

Os navios negreiros trouxeram dores inconfessáveis. O último contato com a terra mãe, a África, se dava no "portal do não-retorno". Dali sabiam que não havia mais volta, que nunca mais sentiriam o cheiro da terra em que nasceram. Antes, davam voltas na "árvore do esquecimento". Ali, eram obrigados a esquecer o nome, a família, a pátria, a religião, a vida em desassossego. Esquecer? Como esquecer? Somos um punhado de instantes que vão se juntando e nos formando. Meu Deus, quanto horror, quanta perversidade, quanta ausência de compaixão! Vendidos chegavam ao Brasil. Sem referências. Sem direito ao amor. Sem direito à saudade.

Os tempos mostraram o quanto erramos. Aprendemos? Não sei. O preconceito ainda zomba de nós. Da nossa pouca capacidade de conviver. Continuamos exigindo esquecimentos e ditando o que é certo e errado no comportamento, na origem, na vida do outro, irmão nosso. Não é a cor que nos separa, nem a condição social, nem o local de nascimento, nem o gênero. O que nos separa é o ódio, a arrogância, a intolerância.

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