Renata foi à casa de Marina. São amigas. Conheceram-se há muito tempo e, há muito tempo, têm o hábito de se visitarem.

Marina é professora de yoga. Gosta das práticas de meditação. Gosta da dança. Gosta de receber pessoas em sua casa para se alimentarem de prosa.

Renata é viúva. Vive do que o marido deixou. Vez ou outra, visita os filhos e os ajuda com os netos.

Marina preparou um foundue para receber a amiga. Renata chegou e quis saber logo o que teriam para jantar. Marina encheu o sorriso de satisfação e disse, no jeito que sabia, "Foudue". Renata a corrigiu. Explicou qual era a pronúncia correta. Quis saber se havia algo mais. Marina falou que havia preparado uma bela maionese. Renata meneou a cabeça e disse que não combinava. E, de sua contrariedade com a tal maionese, foram nascendo outras observações. "Não gosto muito de bossa nova, você poderia colocar outra música?", pediu Renata. E Marina foi logo mudando. "Pode ser música francesa, você gosta de Piaf?" Renata não disse nada, mas aquiesceu com a cabeça. "É esse queijo que você vai usar no fondue?" Marina não entendeu a contrariedade e perguntou: "Qual queijo eu deveria usar?" Renata fez uma expressão de tanto faz e não deu sequência ao assunto.

"Essa água é mineral?", perguntou Renata. "É do filtro de casa, ué, você já tomou várias vezes". Renata prossegue: "Tem coca zero?" Marina, prontamente, responde: "Tem, sim, vou pegar para você". "Prefiro guaraná". "Uhm, guaraná, eu não tenho". "Ah, não. Então deixa. Eu não estou com sede. Depois tomo em casa".

"Você não tem ar condicionado na sala, né?"

"Não tenho. O pé direito é alto. E está frio. Por que você quer ar condicionado?"

Renata olha para o nada. "Tem sobremesa?"

Marina se anima, "Eu fiz o pudim de leite que você adora". "Pudim não combina com fondue, tem alguma fruta?" "Tem, Renata, tem morango, tem laranja, tem pera, uva". "Gosto muito de mamão, mas não faço questão".

Marina foi buscando alguma paciência sobrevivente.

"Cansei dessa música francesa". Quando ouviu, Marina quis devolver com um "E eu cansei de você". Mas não disse nada.O jantar estava por terminar. Era melhor respirar e ouvir a bossa nova que silenciava as chateações, "Tristeza, por favor, vai embora, minha alma que chora, está vendo o meu fim".

"Preciso ir embora", disse Renata se levantando. E prosseguiu, "Vai chover". Pela janela, Marina viu o céu estrelado e uma lua querendo crescer. "Vai chover, sim", concordou Marina já se despedindo.

Quando Renata se foi, ela olhou para o céu e agradeceu estar sozinha. A música prosseguia. O pudim estava delicioso. A água filtrada filtrava experiências ruins e dava refresco à noite fria.

Algumas amizades teimam em desrespeitar as delicadezas dos encontros. Outras teimam em aceitar. Por enquanto.

"Quero voltar àquela vida de alegria, quero de novo cantar".

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia - RJ) | Data: 166/09/2018

Lenita trabalha na casa de Ângela há um bom tempo. Faz tudo. E gosta do que faz. Da limpeza à organização da roupa, da comida aos cuidados com os filhos, das compras à companhia para a mãe de Ângela, Vera.

Vera tem andando doente. Anda quase nada sem ajuda. Até pelo banho de Vera, Lenita se responsabiliza.

O marido de Ângela é um bom homem, na opinião de Lenita, mas muito frio com a mulher, a sogra e os filhos. "Timidez, talvez", pensa ela. Ângela, ao contrário, fala o tempo todo, e todo o tempo faz questão de demonstrar seu afeto aos seus.

Lenita também tem mãe, Eulália. Uma vez ao ano, organiza-se para ir visitá-la. Passa as férias no Nordeste revivendo os dias felizes em que toda a família vivia junto. Tem outras cinco irmãs. Duas moram na cidade em que mora a mãe, e as outras três moram, como ela, em lugares distantes por causa do trabalho.

As facilidades das novas tecnologias diminuíram as distâncias e amenizaram a saudade. Elas podem se ver enquanto conversam. A mãe também aprendeu. E assim, todas as noites, Lenita e Eulália se veem e se derramam em afeto.

Uma noite, estavam conversando, quando Lenita soou a campainha. Vera queria ir ao banheiro. Gentilmente estava Lenita com ela. Um dia, Ângela chegou em casa e viu Lenita com outro olhar. Foi só perguntar e os olhos de Lenita se encheram de lágrimas. A mãe de Lenita estava doente. Havia sido diagnosticada com câncer. Ângela ouviu e disse pouco. Câncer pode se curar e quando não cura demora muito para matar. Lenita ouviu sem muito reação. "Você esteve lá faz poucos meses, não vai inventar de me deixar sozinha, espera as férias e vai ver sua mãe; bem, o que temos para o jantar?" Lenita respondeu sobre o jantar. E, sobre o resto, nada lhe restou dizer.

Tudo limpo, foi para o quarto. Quando começou sua oração, ouviu a campainha. Foi logo atender Vera. E o fez, como sempre, com boa vontade.

Voltou para quarto. Ligou para a mãe. Choraram juntas. Acalmou a mãe. Disse que tudo ficaria bem. A mãe olhou nos olhos da filha, separadas a quilômetros e quilômetros de distância, e disse: "Como eu queria que você estivesse aqui". A filha nada disse, apenas sorriu.

Na cama, a dor da necessidade. Na cama, os pensamentos briguentos com o que disse a patroa. Ela não havia pedido nada. Por que da recusa? Porque tantas vezes ouviu que fazia parte da família quando Ângela precisava de alguma coisa.

Uma oração pedindo a Deus uma noite calma. Um sono amigo. E nada. O olhar da mãe ainda estava com ela, "Como eu queria que você estivesse aqui".

A noite não dormida despediu-se quando os afazeres reclamavam por ela. Café para a família toda, ajuda aos filhos de Ângela para que fossem à escola, banho em Vera. Depois seria o almoço para ser preparado, e todo o resto que o resto do dia lhe cobraria.

Poderia ir no final de semana ver a mãe. Apenas para abraçá-la, para chorar com ela os receios que chegaram, para dividir o amor necessário.

Faria isso. Com ou sem autorização. “Os tempos são outros”, pensava ela, “Não. Não vou desperdiçar a chance de amar. Minha mãe é meu maior amor”.

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia - RJ) | Data: 09/09/2018

Era o velório do pai. Foi de repente. Cassiano estava viajando e, quando voltou, o pai já agonizava em um hospital. Uma infecção qualquer que não sabiam explicar. Um sangramento no estômago. Um coração que resolveu parar de dizer.

E o pai se foi. E, com ele, as possibilidades de alguns ditos. O pai sempre foi um homem correto, cioso de suas responsabilidades. Na simplicidade da roça, aprendeu com o pai o que pôde. E cuidou do pai até o último instante. Amou-o. Respeitou-o. Não sabia muitos ditos elogiosos, mas sabia estar perto. E sabia respeitar. Dizia para si mesmo, com orgulho humilde, que nunca levantara a voz para o pai.

De seu jeito, tentou passar para os filhos os mesmos valores. Não estudou, mas deu estudo aos dois. Chorou nas duas formaturas. Emocionou-se abraçando a mulher. Economizou nas próprias roupas para vestir melhor os filhos. Para ele, uma bicicleta velha; para os dois, o que podia comprar de melhor.

Cassiano era o filho que mais discordava do pai. E debochava do irmão que trabalhava com o pai em uma barraca de coco e, à noite, cursava faculdade de direito. Cassiano gostava da vida boa. Gostava de viajar. Bebia mais do que o necessário, na opinião do pai. As horas de ausência de sono desperdiçadas, sabe-se lá onde eram outros pontos de divergência. O pai queria que Cassiano fizesse uma faculdade, que trabalhasse, que respeitasse as mulheres. E o filho ria arrogante da inferioridade do pai. Aliás, escondia ele que era filho de pai vendedor de coco. Quando perguntavam, desde muito tempo, respondia que era filho de empresário. A mãe tentava corrigir o filho. Mas não conseguia.

A última briga, antes da viagem de Cassiano, antes da súbita doença do pai, foi muito dura para toda a família. Era um jantar simples, e o pai falou de um conhecido que fora à barraca falar de um dinheiro que havia emprestado ao Cassiano. "Um dinheiro para você comprar uma cadeira de rodas para sua avó? Que vó é essa?" - o pai dizia indignado - "Eu não ensinei filho meu a mentir".

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