É essa uma pergunta famosa na filosofia.

Maquiavel, um dos fundadores da ciência política moderna, queria saber se, para se manter no poder, era melhor ser amado ou temido. O poder, ao qual se refere o filósofo florentino, parece ser o poder do príncipe ou de quem governa. Mas o poder é exercido em todas as relações sociais.

No poder familiar, é melhor aos pais serem amados ou temidos?

No poder que tem um professor, em uma sala de aula, é melhor que seja ele amado ou temido? No poder que um líder exerce sobre os seus liderados? Um diretor de uma empresa, por exemplo, é melhor que seja amado ou temido?

Vamos voltar a Maquiavel e ao seu tempo. Explicava ele que era bom que fosse amado e temido, mas que, se precisasse escolher, era o temor mais fácil de se controlar do que o amor.

Um pai que é temido por seu filho faz com que o seu filho lhe obedeça com mais facilidade. Um professor que impõe medo aos seus alunos consegue exercer o seu poder com mais tranquilidade. Mas o que quer um pai? O que quer um professor? O temor é o objetivo que os impulsiona a agir ou é o amor?

O amor é mais trabalhoso, é mais inconstante, é mais dialogal. O amor exige mais explicações, mais compreensões, mais atitudes. O temor paralisa e pronto. Está resolvido. Não coloco a mão naquela grade porque dá choque. E não há nada que eu possa fazer para sair. O amor faz com que eu não saia, porque escolhi ficar. É aqui, onde estou, o meu lugar.

Dia desses, fui a um café com uma amiga. Sentamos numa mesa e, ao lado, duas senhoras conversavam. Falavam sem a menor preocupação em compartilhar a história com todas as mesas ao redor. Minha amiga olhou-me com estranhamento e, em um tom comedido, disse: "Por que falam tão alto?". E as gargalhadas também eram sem economias. E chamavam o garçom com um grito de "Oi". Alto.

As pessoas das outras mesas paravam de falar e olhavam para tentar compreender. Uma criança berrava reclamando de alguma coisa em uma mesa não tão distante. Os pais, entretidos com seus celulares, pareciam não se incomodar. Eu olhava um pouco indignado. Desperdício. Por que não contavam histórias aqueles pais? Por que não mediam o crescer cotidiano dos filhos? Não. Estavam em outro mundo.

A música não estava tão baixa. E, de repente, uma das senhoras das palavras altas gesticulou além do normal e derrubou a bandeja do garçom que vinha trazendo algumas xícaras de café, pães, sucos e água. O barulho roubou novamente a atenção dos que ali estavam.

Meus pensamentos buscavam por liberdade. Minha amiga, geralmente vagarosa para comer, deu-se rapidamente por satisfeita. Ir embora era um convite que nos parecia irrecusável. Pagamos a conta e saímos.

Era uma terça-feira ou talvez uma quarta. Bem, o dia não importa. O que importa é o sentimento de Carlos.

Pois bem, ele amanheceu e olhou ao redor. E viu as coisas ocupando os seus espaços. A mulher já havia saído; seu perfume, não.

Enquanto inspirava o ar apaixonante, Carlos sorria. E agradecia por estar ali. No travesseiro ao lado, resquício de alguma maquiagem. E o cheiro bom da esposa. Carlos é um homem apaixonado. E fala da sua mulher com profunda admiração, o que é essencial para que um relacionamento rasgue o tempo.

Ao levantar, percebe uma fresta boa de sol iluminando a foto do filho. Tem eles um filho. Pequeno, ainda. Apressa-se para ir ao quarto do menino. Ele ainda dorme. Deita-se Carlos ao lado do filho. E o abraça com tanta força que força o menino a acordar. O filho não se importa. Diz um lindo "papai" que faz com que Carlos suspire de felicidade. Brincam eles um pouco. Cócegas, risos, guerra de travesseiros. E, depois, os afazeres necessários. O menino precisa ir para a escola, e Carlos para o trabalho.

Antes, tomam café juntos. O filho conta alguma coisa da professora. O pai saboreia um pão com manteiga e geleia. Doce é sua vida. Quando pensa que perfeição não existe, espanta o pensamento. Os dias têm sido substituídos por outros dias perfeitos. Numa sucessão de acontecimentos comuns, deliciosamente comuns.

Carlos tem amigos que reclamam dos relacionamentos. Espanta-se com alguns que dizem que o pior horário do dia é o da volta para casa. Faliram os afetos, adormeceu o respeito, esfriou o enlace. E permanecem semimortos desejando que o fim aconteça sem sobressaltos. Carlos não acha certo dar conselhos. O melhor é ouvir apenas. Vez ou outra, jogar alguma luz que ajude a enxergar. E que puxe alguma coragem para reinventar. Pensa consigo mesmo que jamais viveria uma história sem história. Se um dia esfriasse, seria sincero. Não, não haverá de esfriar. Ralha-se consigo mesmo por dar margem a especulações desnecessárias.

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