Alzira trabalha em uma casa de família. Gosta do que faz. Trabalha na limpeza, na arrumação e, principalmente, na cozinha. Inventa receitas para agradar a família. Sonha, um dia, abrir um restaurante, mesmo que pequeno, para mostrar para mais gente o seu talento. Faz uma moqueca como ninguém. Sabe fazer à baiana e à capixaba. Faz todos os tipos de tortas e bolos. Enfeita até as saladas. O arroz com feijão tem algum segredo que ela não conta.

A patroa de Alzira a trata com muito carinho. Cada vez que há convidados para o almoço ou para o jantar, ela chama Alzira que recebe os aplausos como uma verdadeira chef de cozinha.

Alzira fica vendo, em seu celular, receitas de chefs famosos. Muda uma coisa aqui, outra ali. Concorda com o uso de alguns ingredientes; com outros, acredita que mistura o sabor, por isso muda. Faz do seu jeito e fica orgulhosa de ter a certeza de que sua receita melhora a original. E assim vai se surpreendendo e surpreendendo aos outros.

Alzira tem um filho de 6 anos, Mateus. Todos os dias senta com o menino e estuda junto com ele as lições da escola. Ela não pôde estudar como gostaria. O filho pode. O filho terá os caminhos mais abertos na vida, pensa ela. E, para isso, o estudo será o melhor companheiro. À noite, eles deitam juntos, e Alzira lê histórias para o filho. Ou inventa. Até que ele adormeça. Sonhando com palavras, personagens, vidas.

Em um dia de folga, Alzira estava indo com o filho na casa de uma amiga. Foi quando houve alguma confusão no ônibus em que estavam. E, então, ela viu que levaram o seu celular. O celular que ela mal havia começado a pagar.

Rosa tem pouco mais de 90 anos. Está doente. Há algum tempo, os médicos disseram que pouca coisa havia para se fazer. Deixou o hospital e foi viver os últimos dias em casa. Rosa não tem medo da morte. Gosta das rezas. Gosta de conversar com Deus e imaginar como será encontrar tantas pessoas que já se foram. Seus pais. Seu único filho homem. Seu amor.

Rosa é viúva. Tem algumas filhas e muitos netos. Tem parentes. Tem amigos. Domingo passado, muitos deles estavam em sua casa. Rosa estava bem. Conversava. Reparava nas conversas. Imaginava...

As crianças brincavam com aparelhos tecnológicos. Os homens e as mulheres bebiam e falavam sobre coisas cotidianas. Vez ou outra, um comentário sobre política, sobre algum filme em cartaz, sobre um médico bom que havia prescrito um tal remédio. A conversa ia fluindo.

Começou um jogo de futebol. Ligaram a televisão. Rosa lembrou do quanto seu marido gostava de futebol. Os tempos são outros. Ela sabia os nomes dos jogadores. Não sabe mais.

Aos poucos, eles foram indo embora. E Rosa foi ficando sozinha. Ela não se importa. Gosta de ficar com os seus pensamentos. Não tem medo deles. Lembrou-se de que havia deixado tudo preparado para a sua herança. Não queria saber de brigas. Conhecia várias famílias que entraram em guerra no momento da partilha. O marido havia deixado muita coisa. Boa parte, ela já havia dividido. O restante já estava acertado.

Mas Rosa pensava em uma outra herança. Que mundo ela gostaria de deixar para os seus. Seu marido era um homem rigoroso com a ética. Não tolerava que ninguém negligenciasse as atitudes de honestidade. Presenciou, tantas vezes, o marido preocupado com o outro com quem estava fazendo um negócio. Queria que as duas partes ficassem satisfeitas. Não gostava de ver alguém vendendo alguma propriedade por desespero. Pagava o preço justo. Tratava os seus funcionários com respeito e os valorizava.

Li a reportagem sobre a reabertura do Hopi Hari. Fiquei feliz em saber que há espaço para matérias sobre parques e sobre brinquedos.

Longe de mim achar que temos de fechar os olhos para as graves crises que nos assolam. Precisamos de informações corretas e de opiniões edificantes. Precisamos de consciência política e de atitude corajosa frente aos erros tantos que maculam a imagem do nosso pais e a esperança que vive acanhada dentro de nós. Mas precisamos, também, de parques e de brinquedos. Precisamos de alegria. A alegria é um bom combustível para a inteligência. A criatividade que brota nas brincadeiras se estende nas várias formas de convivência e de solução de problemas.

Parques de diversão são um convite ao estar junto, ao rir, ao sentir e vencer o medo, ao se emocionar. É bonito de se ver os olhos ávidos de crianças que se lançam em cada atração. E de adultos que se permitem revisitar os melhores sentimentos da criança.

Já fui a muitos parques de diversão. Alguns pequenos, na minha cidade do interior. Ficava vendo a montagem do parque que funcionaria apenas durante a trezena de Santo Antônio, o Santo Padroeiro da cidade. E brincava o quanto podia. E, depois, via tudo sendo desmontado. A alegria partia um pouco e um pouco permanecia. Afinal, temos o humano poder da lembrança.

Menino ainda, fui a excursões nos parques de diversão em São Paulo e no Rio de Janeiro. Os dois, aliás, Playcenter e Tivoli Parque da Lagoa, já não existem mais. Mas me lembro das façanhas, dos medos, do correr cúmplice na chegada aos brinquedos, dos lanches, da ansiedade na ida e do cansaço da volta - éramos promessa, o tempo ainda não nos mostrava a sua face, a sua pressa.

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