E as aulas recomeçaram.

Os recomeços sempre serviram de algum ânimo para Jerônimo. A casa não era o melhor dos ambientes. O irmão mais velho, André, cultivador de desonestidades, era um tormento difícil de conviver. Bebia, usava drogas e, se tinha algum propósito, era o de se dar bem na vida, enganando alguém.

Jerônimo lamentava pelas atitudes do irmão, mas tinha medo. O irmão o via como um fracote, ameaçava-o, ridicularizava-o na frente de outros. O pai dos dois os abandonou desde sempre. A mãe, trabalhadora que só, não conseguia endireitar o filho mais velho nem acolher os medos do mais novo. Fazia o que podia para alimentar a casa, e o resto era o cansaço.

Jerônimo, no alto dos seus 9 anos, chorava sozinho a vida dura que levava. Discordava com ele mesmo do que ouvia sobre a infância. Não. Definitivamente, a infância não era um tempo bom. E como demorava para passar! Tempo longo. Um dia, seria adulto, cuidaria da mãe e nunca mais precisaria ver o irmão maldoso.

Era isso que pensava o menino que se preparava para ir à escola. A mochila, presente de uma tia, o irmão tinha levado. Pegou o caderno, do semestre anterior, um pequeno estojo com lápis e caneta e lá se foi para a escola.

A conversa que ouvi foi mais ou menos assim:

- Somos feitos de cristal, precisamos tomar cuidado.

- É.

- Se não souber pegar, quebra.

- É.

- Se usar de muita força...

- Preciso ir.

E alguma coisa mais depois que um dos dois deixou o elevador.

O que ficou prosseguiu me explicando:

- A gente tem que tomar cuidado até com quem diz que é amigo, eu já me quebrei muitas vezes.

Eu quis saber:

- E cristal quebrado, tem jeito?

Ele riu.

- Sei lá, tem tanta coisa que eu não sei.

O elevador chegou ao térreo e saímos. E a imagem do cristal inteiro ou quebrado ficou em mim.

A metáfora do cristal pode funcionar. Temos que tomar cuidado com os outros e exigir dos outros o mesmo cuidado. Mas é difícil. Um cristal quebrado nunca volta a ser o que foi um dia. Mas e um ser humano? Como viver sem as quebraduras na alma? Como nos defender a ponto de ninguém nos trincar?

Um cristal guardado e trancado em algum lugar talvez não corra riscos. Mas um cristal foi feito para ser usado. Para servir. Para embelezar. Para se encontrar com olhares, com mãos, com bocas.

Guardar os nossos sentimentos com medo de que nos machuquem é desconsiderar a razão da existência dos sentimentos.

Amar dá medo? Talvez. Tirarmos as nossas sandálias e pisarmos sem receio no chão do encontro dá medo? Pode ser que sim. Mas e então?

Não. Não somos cristais. O cristal trincado, quebrado, nunca volta a ser o que foi antes. Perde certamente o seu valor. No nosso caso, talvez não voltemos a ser o que fomos antes até porque mudamos o tempo todo. Mas, diferentemente do cristal, essas experiências não retiram o nosso valor. Valemos mais por conhecermos mais as trincaduras da alma. Por nos aproximarmos mais dos calvários humanos.

O nosso sofrimento nos fará compreender melhor os sofrimentos dos outros. Que linda palavra e que lindo significado tem a compaixão!

Queria ter conhecido mais as razões que fizeram aquele senhor, em um elevador, trazer a imagem dos cristais. Gosto de ouvir as histórias de vida que embelezam a vida. Gosto da canção que diz que "cada um de nós compõe a sua história, cada ser em si carrega o dom de ser capaz, e ser feliz". Com rachaduras ou sem. Com trincaduras ou sem. Sem? Não. Não temos esse dom. Nossa capacidade é, apesar da fragilidade humana, ser feliz.

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia - RJ) | Data: 29/07/2018

Junior é bom. Junior é mau. Junior acorda cedo e ajuda a sua mãe que está em uma cadeira de rodas há algum tempo. Antes de sair, passeia com o cachorro, rega as plantas, conversa com uns passarinhos que cantarolam primavera para a mãe.

Junior maltrata sua namorada. Trata-a como se fosse um objeto. Já a espancou algumas vezes. Depois se arrepende. Pede perdão. E, Julieta, a namorada, o recebe de volta.

Junior brinca com os filhos do seu irmão. É um ótimo tio. Nem um dia extenuante de trabalho tira dele a disposição para rolar no tapete da sala inventando todo tipo de estripulias.

Junior participa de rachas. Gosta da velocidade dos carros. Já foi alertado algumas vezes. Já viu amigos sendo presos por terem atropelado e matado pessoas que, inocentemente, caminhavam em calçadas.

Junior ajuda quem dele precisa. Como pode. Basta alguém de sua comunidade pedir alguma coisa que lá vai ele para arrumar um desarrumo qualquer.

Junior tem pavio curto e, quando bebe, piora. Não poucas vezes arrancou sangue de alguém que o desafiou em algum bar. Se olham para sua namorada, então, ele é capaz de deixar desacordado o desavisado. Julieta não gosta das atitudes do namorado. Mas tem medo. De ficar com ele. E medo de largar dele.

A mãe de Junior pouco sabe dele. Só sabe do seu afeto, do seu cuidado com ela, da sua meiguice com a família. Quando contaram de alguns arroubos do filho, ela não acreditou. "Junior é bom", repete a mãe. E se põe a falar das coisas boas que ele faz.

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