Quem eram aqueles que aclamavam Jesus na entrada de Jerusalém? Aqueles que, com os seus ramos de oliveira, gritavam "Hosana, hosana ao filho de Davi"? Quem eram os que festejavam sua história? O Nazareno que falava sobre o amor, que não tinha preconceitos, que conversava com as crianças, que acolhia as mulheres, que não tinha nojo dos leprosos? Aquele que ensinava em parábolas?

Havia razões para comemorar a sua chegada. Ele desassossegava as pessoas com sua capacidade de ensinar o amor e seus afluentes. Do rio precioso, saíam outros necessários como o perdão, a misericórdia, a compaixão.

Teve Jesus compaixão por aquela mulher que, por pouco, não fora apedrejada. Chorou com os choros das irmãs de Lázaro. Compreendeu a dor da viúva de Naim. Era um cortejo de lágrimas que saía da cidade quando ele chegava com o cortejo da esperança. E a mãe pôde abraçar novamente o seu filho. Devolveu alegria aos noivos de Caná da Galiléia. Explicou que os humilhados serão exaltados e que os humilhadores não encontrarão a paz.

Entrava esse homem em Jerusalém e o povo tinha razões de sobra para aplaudi-lo. Mas o que houve depois? O mesmo homem foi humilhado, açoitado, despido de sua dignidade em um calvário de abandonos. Os gritos eram outros. Queriam o seu fim. Não toleravam mais a presença de alguém tão bom. Era preciso jogar sobre ele todos os ódios que estavam acumulados.

Ele representava algum perigo? Decidiram que “sim”. Em uma guerra de comunicação, convenceram os que o receberam com aplausos a cerrar os punhos e lançar sobre Jesus suas ausências. Nada de misericórdia ou compaixão. Nem a dor da mãe que encontra o filho ensanguentado parecia comovê-los. Até os amigos tiveram medo e o negaram. A cruz seria o seu destino. Antes um governante lavou as mãos. Antes uns religiosos justificaram os horrores em nome de Deus.

Usar o nome de Deus para matar é correto? Quem decide o que é o correto? Mas e o povo? O povo que o aclamava com alegria? Mudou de lado. Um cisco entrou em seus olhos e já não mais enxergavam. O ódio tem esse poder. O poder de não nos deixar ver. E o pregador do amor caminhava para ser pregado na cruz.

E a história se repete. É o início de mais uma Semana Santa. As cerimônias são plenas de ensinamentos e instigações. Quem estamos crucificando hoje? Quem estamos abandonando? Ontem, os entusiasmos diante da possibilidade do poder. Hoje, o abandono.

O jovem pregador do amor não reagiu aos odientos ataques. Não era esse o seu tema de vida. Seguiu ciente de que o tempo haveria de rasgar o véu da ignorância que cegou aquela gente.

O que nos cega hoje? Dizeres malditos que nos convencem a matar? A morte na cruz não está prevista em nosso sistema jurídico. Mas e as cruzes que obrigamos o outro a carregar? Houve justiça com Jesus? Justiça injusta aquela. Filha da mentira divulgada. Filha do medo de um amor revelador.

Políticos e religiosos, legalistas e moralistas estavam todos do mesmo lado. Divulgadores de falsidades, também. E, do lado certo, estava Ele. Entrando em Jerusalém. Partilhando o pão. Lavando os pés dos Seus amigos. Orando por paz.

Os nomes dos que gritavam pedindo Sua morte não ficaram registrados nas história. O Dele ficou. O menino de Nazaré, o filho de Maria e do carpinteiro José, o inaugurador de uma nova forma de falar com Deus, de falar de Deus.

Que essa semana nos santifique. Os ciclos se repetem. Os de ódio e os de amor.

Quando olhamos os ódios do passado, os tiranos, os injustos, os mentirosos, certamente, lamentamos. Mas e quando reproduzimos esses mal comportamentos? Há alguns que tiveram o poder e mataram milhares ou milhões. Há outros que matam esperanças dentro de casa, que desperdiçam infâncias, que agridem mulheres, que roubam a alegria. Que tiram a paz dos que encontram nas tantas esquinas que há por aí. Há os que crucificam na primeira informação e há os que conversam com o tempo para compreender.

No domingo que vem, é Páscoa. Um outro dia. Um outro artigo. Um outro raio de esperança a nos dizer que é a vida a vitoriosa.

Que seja uma semana de vida, para todos nós, imperfeitos, errantes, ávidos por alguma luz. A luz está na cruz, mas sairá dela para viver nas consciências que se abrirem, como se abriu aquele túmulo, mostrando que a morte não poderia matar o amor.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia - RJ) | Data: 09/04/2017

Uma mulher estava limpando a rua. Muitas mulheres e homens limpam as ruas, todos os dias, nas pequenas e nas grandes cidades. Com seu uniforme, a mulher, gari, limpava a rua.

Um homem chegou para entrar em seu carro e começou a xingar a mulher. Falava alto. Gesticulava. Ameaçava. A mulher tentava explicar. O homem não estava disposto a ouvir. Eram frases tão soltas, tão desconectadas, tão agressivas que ficava difícil entender tamanha chateação em uma manhã ensolarada.

O dia estava apenas começando. O homem saiu com o carro em alta velocidade, sem desperdiçar, entretanto, a oportunidade de mais algum xingamento. Com o vidro aberto, mandou que ela sujasse a mãe e ainda disse que estava com o nome dela e que ela aguardasse para ver o que haveria de acontecer. Gritando e olhando para trás, quase atropelou uma criança com roupa de escola.

A mulher parou um pouco, colocou as duas mãos sobre a vassoura em pé, abaixou o queixo para acomodá-lo sobre as mãos e respirou calmamente para que as batidas apressadas do coração voltassem a ser o que eram antes do ocorrido.

Chorou aquela mulher. Lembrou-se da mãe, de quem ela cuidou até morrer. Sujar a mãe? Nunca. Limpou-a muitas vezes, quando a doença roubou sua autonomia. Acordou cedo, cedíssimo, para trabalhar. O pouco salário nunca foi desculpa para algum descuido. Se alguma poeira atingiu aquele homem, não foi proposital. Ela estava de costas quando ele chegou. O carro estava estacionado em frente a uma igreja. Certamente, ele não estaria saindo da igreja, pensava a mulher. Se estivesse saindo, se estivesse ido rezar, não agiria daquela forma.

O homem pediu o seu nome. Ela, imediatamente, deu. Com a língua presa, pronunciou um nome comum. Não entendeu a razão. Ligaria ele para algum conhecido poderoso e pediria que ela fosse demitida? O homem parecia decidido a mostrar que mandava.

Um olhar. Apenas um olhar e a quietude. E o coral de vozes não mais a amedrontou.

Era uma menina. Ainda nos tempos da infância. E era tímida. E tinha os medos todos comuns à infância e a todas as idades.

Os pais moravam longe um do outro. Optaram por tentar outras escolhas. Filha única a menina. Era a mãe quem a preparava para ir à escola. O pai a visitava quando podia. Sentia falta do pai a menina, mas ressentia não conseguir dizer o que sentia. Ensaiava pedir alguma atenção. Chegava a pronunciar para si mesma o que haveria de dizer. Não dizia.

A mãe estava sempre em busca de algo que a menina não compreendia. Sobressaltada com a vida. Com as buscas. Com os fracassos.

A menina tinha medo do fracasso. Alguém disse que ela não cantava bem. Brincadeira estúpida, talvez. Mas a incomodou. E como! Quis sair do coral, mas não conseguiu dizer. E por lá ficou. O medo, nesse caso, foi-lhe companheiro.

Era o dia da apresentação. Mulheres e homens estavam no teatro. Entraram as crianças. A menina tinha o coração acelerado. Resolveu cantar baixo para não incomodar. Talvez assim não percebessem os erros da sua voz. Temia esquecer a canção. Temia ter alguma tontura. E o medo roubava dela o prazer de estar ali. Resolveu ficar um pouco escondida. Melhor que não a vissem. Com olhos baixos, teve um súbito de coragem e olhou. Um olhar. Depois de tantos que nada viram. Um olhar e o encontro com os olhos da mãe. Um sorriso. Um alívio. E mais um desejo.

O pai estava entrando. Ela viu ao longe. E não precisou de mais nada. Esqueceu-se de tudo. E cantou. E participou daquela sinfonia. Naquele tempo em que o tempo ainda não dizia quanto é apressado.

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