Dizem alguns especialistas que o chá de hibisco faz bem, se for consumido de forma moderada. É um termogênico, que melhora a circulação. Ajuda na digestão e impede parte da absorção da gordura pelo organismo. E há tantos outros argumentos que fazem com que algumas pessoas profetizem futuros mais magros.

Márcia e Suzana foram ao shopping. Fazer compras. Suzana é uma amiga e tanto. É presente como se faz necessário ao convívio da amizade. É compreensiva quando a situação assim o exige. E sabe ouvir, o que é fundamental para quem acredita no exercício do amor. Pois bem, Márcia gosta de falar. Fala sem economias sobre os mais variados assuntos. E agora, o assunto predileto é o tal chá de hibisco.

Antes das compras, Márcia cismou que, como vai perder uma quantidade impressionante de quilos, era prudente comprar roupas menores. Suzana argumentou que era melhor esperar o tal emagrecimento. E depois comprariam. Márcia disse que não. Que era impossível não se despedir dos quilos que a incomodavam depois da descoberta do século, o chá de hibisco.

Foram as duas. Antes das lojas, sentaram-se em um café cujo aroma convidava para uma prosa. O atendente veio sorridente tirar o pedido. Suzana pediu um café e uma água com gás. Márcia estranhou, "Só isso?". Suzana relembrou, "Acabamos de almoçar". Márcia olhou para o relógio e não comentou a explicação da amiga. "Quero dois pães de queijo, uma empadinha de palmito que só vocês sabem fazer e um café com adoçante". O moço já se preparava para ir resolver os pedidos, quando Márcia prosseguiu "Humm, me deu vontade de comer um pedaço pequeno de baguete com manteiga". Suzana apenas olhou. O atendente perguntou: "Cancelo, então, os pães de queijo e...". Antes que ele terminasse de perguntar, Márcia soltou: "Não cancele nada! Acrescente! E, por favor, já que estamos aqui, quero aquele brigadeirão, que é a especialidade da casa". Ele anotou e se foi.

Era um almoço entre amigos.

As conversas visitavam os mais variados temas.

As amizades preenchem de significado as nossas vidas. Alimentamo-nos da saudade e da presença, dos ditos e do silêncio, dos choros e das conquistas.

O amor é sempre um tema reconfortante.

David Neto pôs-se a falar da história dos seus avós, Elisa e David. Ele, 20 anos mais velho do que ela. Conheceram-se como se conheciam naquele tempo. Ele soube que havia uma família com uma moça em idade de casamento em uma cidade do interior. E foi até lá. Falou com o pai e conheceu a moça. Trocaram olhares, algum texto tímido e nada mais.

Naquela época, o pai decidia. Resolveu o pai de Elisa, entretanto, dar a ela o poder de escolha. Um relativo poder de escolha. Ou se casaria com David ou com um outro que chegaria do Líbano em alguns meses. Elisa escolheu David. Preferiu o que já havia visto a alguma surpresa. Casaram-se. Ele, aos 37 anos; ela, aos 17. E viveram a vida de amantes, de amigos, de companheiros, de peregrinos.

O mundo é cheio de subidas e descidas. Percorreram juntos. Contemplaram primaveras e invernos. E, quando menos perceberam, o tempo havia escapado de suas mãos. David morreu aos 82 anos. Elisa tinha 62. As despedidas são sempre incômodas, quando há amor. E amor era a refeição que os alimentava diuturnamente.

A vida prosseguiu e Elisa viveu muito. Despediu-se aos 96 anos. Foi quando David, o neto, engasgou-se com a emoção. "Sabe o que mais me impressionava, quando eu visitava a minha avó?" Perguntou e fez uma pausa. Olhou para o ontem, para os romantismos que surpreendiam. E prosseguiu: "Meu avô foi perdendo o cabelo. E começou a usar um boné. Um boné diferente dos de hoje. De tecido. Eu me lembro desse boné& quot;. Esfregou os olhos. "Minha avó, durante mais de 30 anos, deixava o boné do meu avô dormir ao seu lado na cama em que se amaram tantas vezes".

Era um sábado à noite. O diretor da peça, Tadeu Aguiar, estava na entrada, recebendo as pessoas. Mulheres e homens vinham chegando de lugares diferentes do Rio de Janeiro para assistir ao musical em homenagem a Bibi Ferreira.

Algumas senhoras comentavam sobre os dias difíceis da cidade. A violência parecia ser o ponto central das conversas. Cenas assustadoras compunham um palco de abandonos e malfeitos. A cidade mais linda do mundo estava prostrada. Seus filhos com medo de sair de casa. Quantas vidas interrompidas prematuramente, quantas lágrimas molhando as famílias enlutadas!

No palco do teatro, a cena era outra. A estrela Amanda Acosta é Bibi Ferreira. Impecável. Com ela, um elenco - que sabe o que faz - traz a história de uma inspiradora. Nascida Abigail, elevou-se a Bibi desde sempre. Filha de Procópio Ferreira, sofreu os preconceitos de uma elite que não compreendia o significado do teatro. Proibida de estudar em uma escola, tornou-se professora dos talentos. Deu vida a personagens, com profissionalismo e paixão. O palco sempre foi seu confidente. Dos amores partidos. Das histórias que gostou de contar. Dos desassossegos tantos que lapidam a alma de um artista. Ela é nossa artista maior. Sua voz fez renascer Piaf, Amália, Sinatra. Sua atuação ensinou que "qualquer desatenção pode ser a gota d'água". Fez mais. Cantou os excluídos em "My Fair Lady", o glamour em "Hello Dolly", a saudade em tangos espanhóis. Apresentou programas de televisão. Entrevistou com conteúdo e elegância. Viveu e vive a vida como um presente de Deus. Os fracassos, exigiu que partissem rapidamente. Nunca teve tempo para lamúrias. Os sucessos, recebeu-os com humildade. Generosa, dirigiu e incentivou tantos outros a prosseguir. A buscar o melhor em cada um deles.

A peça terminou. Que pena. Na plateia, os aplausos eram de gratidão por estarem ali. As senhoras que falavam sobre violência, antes do espetáculo, comentaram sobre a saudade de um outro Rio de Janeiro. Mais romântico, mais vagaroso, mais humano. As expressões franzidas deram espaço a sorrisos. Disse uma à outra: "Nossa, como eu estou leve, como esse musical me fez bem". Eis a resistência!

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