Amanhã, a esperança há de surpreender mais uma vez. É sempre assim. Depois do que se vive hoje, há um amanhã.

Um certo João explicou sobre ser uma voz que clamava no deserto. Naquele tempo. Nos tempos de hoje. O deserto das ausências. O egoísmo nos toma de assalto e fica. E é sobre nós e apenas sobre nós que nos debruçamos. O outro é apenas um dispensável a mais. O deserto das presenças erráticas. O outro me interessa quando interessa. Nada de amizades, mas de adulações e de descartes. Nada de amores, mas de expectativas. Nada de liberdade, mas de trancafiamentos.

O deserto de João se repete hoje. Mas, amanhã, é Natal. E o Menino vem novamente. Sem pretensões de imediatismos. A manjedoura é o coração humano. Metáfora dos sentimentos que nos acolhem. Pulsante coração. Capaz de irrigar desertos e afinar vozes para tempos mais plenos.

Sim, na plenitude dos tempos, nasceu o Menino. Assim está escrito nas Escrituras Sagradas. No tempo certo, para que os homens pudessem perceber os encontros e celebrar a permanência. O Menino nasceu e foi esperançar na carpintaria de José. Foi crescendo e fazendo crescer. Foi amando e ensinando a amar. Foi olhando e desconsertando os que se achavam consertados mesmo vivendo no deserto. Os pretensiosos sempre tiveram dificuldade de compreender a simplicidade do Menino.

O natal nos traz todos esses ingredientes. A fartura das mesas deveria vir depois. É de fartura de afetos que carecemos. De olhares que impeçam a invisibilidade, de ouvidos que espantem a surdez. Há gritos implorando por justiça, há gritos pedindo apenas atenção.

Desatentos, comemos e bebemos sem economia. E cobramos presentes. Presenças reais ficam para os que aprenderam a compreender, a sentir, a ver a estrela que continua a nos guiar para que saiamos do deserto.

A melancolia é um estado da alma. Muito aberta essa definição? Há uma outra, de Victor Hugo, que diz que "a melancolia é a felicidade de estar triste". A felicidade de estar triste? Como é possível? É possível.

A melancolia é amiga da memória. Estou falando de uma melancolia que vive na casa dos românticos, não da melancolia estudo dos psiquiatras e outros pesquisadores da depressão e da mente humana.

A melancolia do coração viaja para o ontem e se apega ao que passou. Gostaria, talvez, de recuperar o que já não tem. Não tem. Fazemos suposições. Imaginamos verdades. Corroemo-nos em brigas refletindo sobre nossas escolhas.

A vida poderia ter sido diferente, se tivéssemos regado outras plantas? Quem sabe? As que temos são trabalhosas, mas são nossas. As que imaginamos talvez nunca tenham sido. Na imaginação, as flores não têm espinhos. Na imaginação, os jardins não têm pragas.

Lygia é escritora. Entendeu, desde cedo, sua vocação. Criou personagens e decidiu seus destinos. Compreendeu o âmago dos que sofrem, dos que riem, dos que dizem, dos que ouvem. Não fez julgamentos. Empacotou dúvidas e enviou aos leitores. "Decidam". Nada de juízos morais, nada de conclusões apressadas, nada de rótulos fáceis. As personagens devem ser desnudadas, aos poucos, no avançar das páginas, no desenrolar das narrativas.

A literatura tem esta beleza: história dos sentimentos. Com as profundezas necessárias. O que é raso não é literatura. É descartável. Lygia preocupa-se com o duradouro. Nos textos e na vida.

Pois bem. Em um desses dias comuns - belos são os dias comuns -, Lygia soltou um comentário em tom elegante: "Falam muito essas pessoas, sabem tudo; já eu, tenho tantas dúvidas". Disse isso e alimentou-se de algumas uvas, sem pressa, saboreando o sabor adocicado. "Hum, que delícia!". Prazeres simples enfeitam os seus dias. Uma echarpe, presente de algum amigo, descansava sobre os seus seios. Lá estava ela, dona de muita sabedoria e ciosa de que as arrogâncias não nos acrescentam nada.

Gosto de ouvir Lygia e suas palavras entremeadas de experiências e bom humor. Não gosto de ouvir pessoas que "sabem tudo". Fico perplexo em ouvir ditos apressados sobre assuntos desconhecidos. Lá vem uma opinião, não uma pergunta. Lá vem um dizer destilando ódio sobre quem pouco se conhece.

Há um antigo ensinamento árabe que nos relembra que há dois ouvidos e apenas uma boca. Há um outro, indiano, que diz: "Quando falares, cuida para que tuas palavras sejam melhores que o silêncio".

Lygia aprecia o silêncio. Os que cultuam a sabedoria apreciam o silêncio. O pensar nasce do silêncio. As palavras nascidas - não do pensamento, mas dos desejos mal administrados - são perigosas. Amizades são desfeitas. Tardes de domingo desperdiçadas. Canso-me dos que pontificam verdades. Sobre qualquer assunto. Basta que narrem algum drama e lá estão eles, os que pouco pensam e muito dizem. Sobre política ou economia, sobre medicina ou filosofia, sobre a vida do outro. Ah, sim, eis o prato predileto no banquete dos supérfluos: a vida dos outros. Não. Nada de celebrar a vitória dos outros, suas conquistas, seus valores, sua contribuição para a melhoria do mundo. Gostam é de fazer torto o que nem sempre torto é.

Lygia prefere falar do ontem e das conquistas dos desbravadores de tantas áreas. Gosta do tema do amor. Do amor que nos expande. Do amor que nos oferece o melhor de nós. Em suas mãos marcadas de lindas histórias, o desenho do tempo gasto com a pena escrevedora. Em sua alma jovem, a esperança de um mundo que ainda nos surpreenda. "Nem tudo está perdido", ensina ela. "Prossigamos, caminhando".

Quando, cansado, recosto minhas decepções em seu colo gentil, ela apenas sorri e me relembra do prazer de viver. Um gole d'água, um café fumegante, um doce qualquer para nos lambuzar de delicias simples e talvez um vinho. Por que não? Para celebrar o que nem sabemos. Sabemos. Os instantes bem acompanhados merecem que brindemos.

Conheço outras Lygias, com outros nomes, com outros ofícios. Conheço gente que, na sensatez dos cotidianos, me ajuda a respirar um ar puro. Mas preciso confessar que também conheço de poluições. De gente que é melhor estar distante. Que acinzenta dias ensolarados. Que nos traz dissabores desnecessários.

Escolher dizer "sim" ou dizer "não" é prova de discernimento, de sabedoria. Espero acertar mais. Olhando para Lygia, para as Lygias que aquecem sem queimar, que cultuam os silêncios sábios e os dizeres edificantes.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia - RJ) | Data: 10/12/2017

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