O massacre ocorrido no Amazonas é mais uma demonstração da falência do sistema penitenciário. Há quem não se preocupe tanto com isso, haja vista o massacre do Carandiru e outros fatos frequentes de mortes em penitenciárias, cadeias e delegacias país afora. Os que não se preocupam têm a infeliz conclusão de que lá não há nenhum santo. Podem não ser santos. Como nós, aliás. Mas são cidadãos. Como nós. Com os direitos dos cidadãos, exceto aquele, o de ir e vir, retirado pela supressão momentânea da liberdade. Suprime-se a liberdade, mas não a dignidade. Mas é digno estarem amontoados? Sem condições mínimas de recuperação? Há uma enorme hipocrisia no discurso de que o sistema penitenciário é, antes de tudo, uma possibilidade de reinserção social. Aquele que cometeu um crime cumpre a pena e se põe a progredir para que possa sair melhor do que entrou. Melhor? Como? Com quais atividades? E quando de lá saem? Quem vai querer abrir os braços e receber alguém que passou parte de sua vida na prisão? Então, a condenação é perpétua? Um tempo preso e outro tempo aprisionado no mal que fez.

Esperança era seu nome.

O segundo nome. O primeiro era Maria. Maria Esperança. E, depois, o nome de família.

Qual teria sido a intenção dos seus pais de chamá-la assim?

Quiseram dar a ela uma responsabilidade desde sempre? Um encargo? Um peso?

Ou vaticinaram que, ali, naquela nova vida, nasceria, como em todas as novas vidas, uma possibilidade de um mundo melhor.

Qual seria sua profissão? Teriam seus pais debatido sobre isso antes da escolha do nome? Certamente, não. Mas quem carrega no nome o nome de

Esperança fará a diferença em qualquer profissão.

E seus irmãos? E seus filhos? Como se chamariam os filhos da Esperança?

Moraria ela em uma grande cidade ou em uma pequena vila do interior? Como seria o seu interior?

Pensaram sobre isso os seus pais? Tiveram tempo de olhar para os amanhãs?

Ou escolheram o nome apenas por uma inspiração.

Quem os teria inspirado?

Antes das festas do reveillon, é prudente que se faxine a casa.

Receber as pessoas com a casa suja é sinal de desleixo.

Não importa que a comida e a bebida estejam boas. Nem que os enfeites colocados, ainda no Natal, sejam de bom gosto. A casa precisa estar limpa. Precisam estar limpos, também, os donos da casa. É desagradável chegar à casa de alguém e perceber que estão sujos. Parece que chegamos antes. Que não demos tempo para se limparem, se prepararem.

É prudente que se limpem os sentimentos e que se limpem também as atitudes. Sentir e agir têm uma conexão necessária.

Há muita coisa sendo limpa em nosso país. E é preciso mais.

Limpar a corrupção e limpar a hipocrisia.

Limpar a injustiça e limpar a mentira.

Limpar as arrogâncias, as avarezas e os outros pecados todos.

Pecar é desconsiderar o outro e nós mesmos. É desperdiçar o bem que é abundante e é limpo e optar pelas sujeiras da maldade.

Não caiamos no erro dos maniqueístas, dos que separam, de um lado, os que julgam bons e, do outro lado, os que julgam maus. Aliás, tomemos cuidado com os julgamentos. Os excessos invariavelmente são injustos.

Limpemos os dissabores rotineiros. Um banho de razoabilidade, de tolerância, de compaixão nos fará muito bem.

Aí sim poderemos convidar os outros para a festa de um novo ano, de um novo ciclo, de uma nova possibilidade que se abre.

Limpos. Os enfeites disfarçam por um tempo a sujeira. Depois se nota. Triste mal da dissimulação.

Que bom seria que limpos fôssemos verdadeiros. Que verdadeiros pudéssemos compreender as escolhas dos outros e respeitá-las. Que respeitosos trabalhássemos por um mundo sem tantas sujeiras.

O mundo nasceu limpo. Acreditar nisso ajuda a fazer o que tem que ser feito.

Boas festas.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 30/12/2016

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