Fabiano comemorou há alguns dias seu aniversário de 80 anos. Recebeu dos seus filhos e da mulher um presente inesquecível. Um livro escrito por Pedro, o caçula da família. No livro, a trajetória do pai, seus sofrimentos e superações. A saída do interior e a chegada na capital. A faculdade tardia de Odontologia. O sonho realizado de trabalhar com a saúde, de devolver o sorriso às pessoas.

No consultório de Fabiano, havia sempre lugar para quem sofria com a dor ou com o preconceito. Dinheiro nunca foi o mais importante. Vindo da roça, de uma infância de privações, Fabiano abraçara a generosidade como uma companheira inseparável.

Em um dia que chegou depois de outro e antes de um que ainda virá, estava ele olhando as mensagens que pululavam no seu celular. Em tempos de política, elas se alvoroçaram ainda mais. Leu uma, duas, três mensagens de uma mesma senhora, amiga antiga. Defensora de um candidato, enviava textos depreciando o outro candidato. Fabiano sempre foi um homem elegante e, na elegância, pescou as melhores palavras para dizer algo a amiga.

"Prefiro ler livros a ler algumas barbaridades que vêm chegando em meu celular", escreveu e enviou. A amiga respondeu de pronto "Ora, tenho que defender as minhas ideias". Fabiano resolveu gastar algum tempo e escolheu trechos que jamais poderiam ser verdadeiros nas mensagens enviadas pela amiga. "Você acredita que isso seja verdade?". Sem pausa, ela tascou: "Nem paro pra pensar nisso, só não quero que essa gente ganhe a eleição". Ele tentou: "Não é melhor enviar textos que destacam a qualidade do seu candidato em vez de mentiras sobre o outro?”. A amiga, sem pensar, já se posicionou: "Prefiro terminar a conversa aqui para não perder o amigo".

Fabiano se viu envolto em dúvidas sobre se agira corretamente ou não. Os ódios levam algum tempo para se racionalizarem. Nesses casos, não teria sido melhor nada responder? Mas como se as mentiras vão se propagando sem nenhum crivo de pensamento? Foi quando entrou sua esposa. Disse da amiga, dos textos, da mentira, do radicalismo. Disse do que fez. A mulher de Fabiano, farmacêutica de bairro, conversadeira de vocação, sorriu para o seu amor. Elogiou a prudência do homem com quem dividia a iluminadora tarefa de viver. E o convidou para comer um pão na chapa com manteiga lustrosa, e um queijo derretido, vindo da serra.

O café fumegante espalhava seu cheiro naquela cozinha cheia de prosas. Fabiano voltou ao tema das irracionalidades. Das ausências de argumentos verdadeiros. Das mentiras que marcam os desejos. Dos perigos dos radicalismos.A mulher concordou. Falou de um bate-boca na farmácia. A mentira chega sorrateira e fica. E expulsa o bom senso, o discernimento, a cordialidade.

Enquanto tomam o café e comem o pão, saboreiam o que têm. Um ao outro. Os olhares prosseguem românticos. Ele elogia o cabelo da esposa. Ela agradece com olhos de amor. Ele pergunta se ela tem algum tempo para descansarem antes dela voltar para a farmácia. Ela sorri repetindo a palavra: "descansarem...".

Quem tem o privilégio de amar alguém, em um entardecer de um dia que chegou depois de outro e antes de um que ainda virá, não perde tempo com impropérios em mensagens de Whatsapp.

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia - RJ) | Data: 28/10/2018

Mariana é filha única. Seus pais trabalham muito e muito se preocupam com a educação de Mariana. Quando estão em casa, toda a atenção é dedicada à menina. Brincam, desenham, contam histórias. As histórias que contam abrem os universos que vivem dentro de Mariana. Ela se emociona, ri, chora, às vezes, e pede mais. Às vezes, pede que contem novamente a mesma história. É assim sempre. Renata, a mãe, diz que a decisão de ter um filho muda completamente a vida de um casal. E que, por isso, é preciso renunciar a muitos espaços para estar presente no ofício grandioso da maternidade. Rafael, o pai, tem dois empregos. Passa o dia entre uma coisa e outra. Mas todos os tempos livres são para a amada filha.

Pois bem, era o dia do professor. E Mariana acordou cedo, como de costume para ir à escola. A professora de Mariana chama-se também Mariana. E gosta do que faz. Com idades diferentes e nomes iguais, parecem viver uma plena sintonia. A escola é um espaço em que se realizam. A professora gosta de estar ali; a menina, também. A professora escolheu a profissão da esperança, a menina é a esperança que cresce todos os dias e que há de desabrochar para enfeitar um tempo imprevisível.

Os alunos preparam uma homenagem à professora. E coube a Mariana dizer algumas palavras. Ela ensaiou em casa, com os pais, na noite anterior. Foi ela quem decidiu o que dizer. Os pais apenas ajudaram na lapidação das palavras. Melhoraram juntos um traço aqui e um respiro ali. Os alunos entoaram um canto, desses que trazem o carinho em forma de canção, e o fizeram lindamente. Um coral é sempre um somatório de esforços e talentos banhados pela magia da música.

Depois da canção, a entrega das flores.

Olhando para as flores que já descansavam no colo da professora, a menina começou a sua oração. Falou dos plantios. Falou dos encontros. Falou do cuidado. Deu pausa. Sorriu. Recebeu de volta o sorriso. Prosseguiu. Lembrou o primeiro dia, a primeira aula, o primeiro "não", os tantos "sins". Lembrou a importância de estarem ali. Pausa e nova troca de olhares e de sorrisos.

E foi dizendo o que preparou. E encerrou desconcertando de emoção a professora. "Temos o mesmo nome, professora, e a mesma vocação". A professora olhou aguardando a conclusão. "A senhora já é uma mestra e eu sou uma aprendiz. Mas, um dia, eu quero ser a Mariana mestra também. Quero ser professora como a senhora. Quero entrar e dar "bom dia" e fazer com que o dia seja bom. Quero terminar desejando que o próximo dia chegue logo para estar novamente ensinando. Professora, a senhora é nossa inspiração. Obrigada por compreender o bem que nos faz". E prosseguiu a menina dizendo e mexendo a cabeça de um lado para o outro. Levemente. O cabelo acompanhava o movimento. O olhar era de sorriso.

Na Mariana professora, algumas lágrimas teimavam em revelar o que o sorriso já havia feito. Era um dia do sol.

À noite, a menina contou tudo com detalhes aos pais. Os dois, preocupados com tempos de tantos desentendimentos, deram uma pausa. Era preciso dar permissão as lágrimas que também resolveram visitá-los.

Rafael olhou sorrindo para Renata e confirmou: "Que delícia que é ter uma família".

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia - RJ) | Data: 21/10/2018

Dona Arlete estava com as mãos na massa, preparando o bolo para o aniversário da bisneta de 15 anos. Foi quando ouviu o comentário de um jornalista sobre uma notícia que a deixou chocada. Um homem assassinado na Bahia por divergências políticas, e o jornalista dizendo que essas coisas acontecem.

Dona Arlete sentou. O homem do rádio continuou noticiando outras coisas. Ela ficou com a imagem paralisada. Dona Arlete viveu a ditadura, chorou o desaparecimento do filho de uma estilista que ela conhecia. Acompanhou mães que imploravam para que os filhos não saíssem às ruas, que não enfrentassem o sistema. Que era perigoso.

Dona Arlete participou de um ou outro comício das "Diretas já", festejou a volta da democracia, votou em partidos diferentes nas eleições, sempre escolhendo quem ela considerava melhor para administrar sua cidade, seu estado ou seu país, livremente. Mas matar alguém por discordar é coisa com que ela não concorda. Depois do susto da notícia e do comentário, ficou com raiva. Como um jornalista vulgariza a morte de alguém? Como? Pensou um pouco. Disse para si mesma que não iria permitir que a raiva a dominasse.

Respirou fundo. Voltou a preparar o bolo. Lembrou do marido, morto há muito tempo. Lembrou do quanto ele temia a intolerância. O marido teve o pai morto na guerra. Fugiu com a mãe. Filho de judeus, ele contava aos filhos como era doloroso imaginar o que o seu pai sofrera, o que o seu povo sofrera. Amava o Brasil por ser uma terra de acolhimentos. Dizia aos amigos que essa terra era abençoada por Deus, não apenas pelo clima, pela água em abundância, mas pelo povo que não era adepto a preconceitos. No Brasil, dizia o marido de Dona Arlete, pode ser dessa ou daquela religião, nascido nesse ou naquele lugar, torcer para um ou outro time, ser dessa ou daquela escola de samba, gostar mais desse ou daquele governante. No Brasil, tudo é paz.

Enquanto mexia a massa para o bolo, os olhos de Dona Arlete teimaram em derramar lágrimas. As lágrimas são um presente do Criador para nos lembrarmos da beleza dos sentimentos. Tem saudades do marido. Tem preocupação com o amanhã.

Filhos, netos, bisnetos. Dona Arlete já viveu muito e, por isso, é agradecida a Deus pelo dom da longevidade. Mas quer viver mais. Diz sempre que, se depender dela, prefere ficar por aqui, embora acredite que há um outro lugar lindo que abraça os que se vão. Deus não nos faria para acabarmos e ponto. É o que ela diz. Mas não tem pressa.

Dona Arlete muda a estação do rádio. Não quer ouvir o jornalista mais. Prefere uma música. Uma música calma para acalmar os seus sentimentos. O bolo vai ficar lindo, a festa também. A bisneta merece.

Enquanto pensa isso, fecha os olhos e reza do seu jeito. Pelo Brasil. Pelos brasileiros. Que uma luz ilumine os que andam encobertos pela raiva. Ela nunca viu nenhum país saindo de crise nenhuma com ódio.

Dona Arlete é uma mulher que ama amar, por isso gosta tanto de viver.

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia - RJ) | Data: 14/10/2018

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