Amanhã é natal. Ou véspera do natal. Então, hoje também é véspera. É quase. Quase é o que ainda não chegou. Ou não aconteceu. Quase ganhou. Quase passou. Quase encontrou.

O natal é um momento de encontros.Na linda história do lindo menino, a humildade encontrou o aconchego necessário para permanecer. Era o tempo certo. O que aconteceu naquele tempo não ficou naquele tempo.

Os natais da minha infância tinham uma inocência que hoje me faz falta. Aprendi a acreditar na bondade e no humano jeito de Deus se manifestar. Em cada ação de amor, um traço do Criador no desenho de infinitas possibilidades que compõem o universo. Acalmava-me na bondade do meu pai. Deus habitava aqueles gestos serenos de compreensão. Palavras eram ditas com cuidado. Olhares eram distribuídos sem economias. E sorrisos. Nada de brigas. O tempo ensina o prazer de andar de mãos dadas.

Havia um irmão que cantarolava sem muito compreender o significado da sua alegria. Um avô que cantava em outra língua, a de sua terra natal. Devia ele ter a saudade que hoje tenho, mesmo sem ser avô. Uma mãe que se apressava para acalmar no momento certo, uma mãe cachoeira de afetos. Sem pausas nem preguiças.Havia uma Rosa, sempre há uma Rosa. Os perfumes da infância têm o poder da permanência.

Eu ainda não havia conhecido a perversidade. Confiava sem medo na espécie humana. Sonhava com o crescimento. Imaginava o que seria um dia. O dia chegou. Outros dias chegaram. Realizei alguns sonhos, outros mudaram sem que eu percebesse. Fui me alimentando do possível para prosseguir.

Se olho para os natais que já se foram, tenho necessidade de agradecer. As feridas que se criam não podem sustar os sorrisos. Quantas conquistas! Quantas manifestações de amor!

Os “quase isso”, “quase aquilo”, não chegaram a borrar o traçado. Tento continuar acreditando que os que agem por mal o fazem não por uma decisão, mas por uma ausência. Esqueceram-se de buscar, no sagrado que mora no interior de todo humano, o que há de mais divino, o amor. E toda a escolha que não é por amor não é escolha, é ausência. A liberdade não pode nos levar à escravidão. Os perversos, os que tramam contra um outro humano, irmão do mesmo barro, não encontram a paz.

Tentei acordar. Não pude. Já estava acordado. Tentei imaginar que se tratava de um pesadelo. Era um pesadelo. Meu próprio filho. Abro a janela e o dia está cinzento. Torno a fechar. Prefiro ficar no silêncio do meu cômodo. Incomoda-me o barulho dos pensamentos. Eu jamais faria isso com meu pai. Jamais!

Meu pai morreu há algum tempo. Fui um filho com algumas ausências, lamento por isso. Hoje, estaria mais presente. Mas o tempo não nos avisa quando vai levar quem amamos. Morreu nos meus braços, meu pai.

Meu filho resolveu me interditar. Dinheiro. Não tenho muito, mas ele quer o que tenho. Criou uma teoria de que eu não tenho condições de decidir por mim mesmo. Arrumou testemunhas que nunca visitaram os meus sentimentos, mas que, de mim, falam como se conhecessem todas as minhas intenções.

Busca meu filho o que aquinhoei com tanto esforço. Um pouco veio do meu pai. O resto, acrescentei trabalhando. E é essa a minha história. A dele? Gosta de luxos, de exibicionismos e de pausas. As pausas entre os fazeres aliviam cansaços. As pausas sem os fazeres roubam a vida da vida. E foi assim que eu fui perdendo a admiração. É duro um pai dizer isso. Não posso admirar um filho que diz que não nasceu para o trabalho. Não posso admirar um filho que abraçou a mentira como cúmplice necessária para os seus malfeitos.

Vivi em uma família por algum tempo. No início, eu era novidade. Era cuidado. Riam as mais diferentes risadas. Comentavam uma ou outra estripulia. E eu gostava. Queria ser sempre o centro. Pulava de um lado e de outro. E dividia, com justiça, o meu amor. Levavam-me para passear.

E foi assim que minha história começou a mudar. Achei que se tratava de mais um passeio. Mas era uma despedida.Os tempos de filhote já haviam se esgotado. Eu cresci. E eles se cansaram de mim. Difícil acreditar nisso. Eu me sentia da família. Mas foi isso que aconteceu. Quando me vi naquele lugar em que se deixam os carros e que depois se buscam, eu ainda fiquei esperando.

Os carros, talvez, tenham mais valor. Ninguém abandona. Já eu. Um cachorro que não era mais novidade, que talvez desse trabalho. Não sei. Sei que nunca deixei de fazer festa quando eles chegavam. Nunca deixei de estar quando me queriam. Deixaram de me querer e fiquei aqui. Sozinho.

Alguns que não conheço me trouxeram água. E passaram a mão na minha cabeça para aliviar as minhas incompreensões. Por que me abandonaram? O que eu fiz contra eles? Outros me deram o que comer. Como não tinha o poder da escolha, resolvi ficar. Não queria incomodar. Decidi que só brincaria com quem quisesse brincar. E que, no restante do tempo, ficaria deitado, quieto, para não desistirem de mim mais uma vez. Não é fácil ser abandonado.

Foi quando alguns deles, ditos seres racionais, aproximaram-se com um sorriso diferente dos sorrisos que sempre gostei de brotar. E um pau de vassoura. Que estranho! Será que vieram fazer uma brincadeira diferente comigo? Mas e esses sorrisos sombrios?

Um me ofereceu o que comer. Comi, sem abanar o rabo. Com alguma preocupação, mas sem o poder de declinar. Comi e comecei a me sentir estranho. E, de repente, fiquei tonto. Não sei se do que comi ou se do bater intermitente da vassoura. Ouvi alguns "Fora daqui", sequer tinha forças para obedecer. Comecei a ver o sangue se despedindo de mim. Comecei a parar de ver. Apenas vultos. Vultos de risos e de frases sem sentido. Que sentido tem tamanha violência?

Antes de partir, começo a sonhar com o dia em que cheguei àquela casa e com os risos bonitos que me acolheram. Escuto o meu choro doído ao perceber o abandono. E sinto algumas alegrias que tive com os carinhos de desconhecidos. E agora, entre uma paulada e outra, despeço-me, sem compreender.Ouvi tantas vezes que os humanos são os mais evoluídos dos animais. Que nós somos os irracionais.

Não há mais tempo para nada. Vêm, agora, recolher o que restou de mim. Vão limpar tudo. Porque outros humanos chegarão e não querem ser importunados.

O meu nome?Tenho tantos.

A minha história? Repete-se com mais frequência do que vocês imaginam. Morro sem perder a ternura, morro sabendo que fiz o que pude para fazer mais feliz a vida deles. Morro irracionalmente amando.

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia - RJ) | Data: 09/12/2018

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