As escolhas de Alzira

Alzira trabalha em uma casa de família. Gosta do que faz. Trabalha na limpeza, na arrumação e, principalmente, na cozinha. Inventa receitas para agradar a família. Sonha, um dia, abrir um restaurante, mesmo que pequeno, para mostrar para mais gente o seu talento. Faz uma moqueca como ninguém. Sabe fazer à baiana e à capixaba. Faz todos os tipos de tortas e bolos. Enfeita até as saladas. O arroz com feijão tem algum segredo que ela não conta.

A patroa de Alzira a trata com muito carinho. Cada vez que há convidados para o almoço ou para o jantar, ela chama Alzira que recebe os aplausos como uma verdadeira chef de cozinha.

Alzira fica vendo, em seu celular, receitas de chefs famosos. Muda uma coisa aqui, outra ali. Concorda com o uso de alguns ingredientes; com outros, acredita que mistura o sabor, por isso muda. Faz do seu jeito e fica orgulhosa de ter a certeza de que sua receita melhora a original. E assim vai se surpreendendo e surpreendendo aos outros.

Alzira tem um filho de 6 anos, Mateus. Todos os dias senta com o menino e estuda junto com ele as lições da escola. Ela não pôde estudar como gostaria. O filho pode. O filho terá os caminhos mais abertos na vida, pensa ela. E, para isso, o estudo será o melhor companheiro. À noite, eles deitam juntos, e Alzira lê histórias para o filho. Ou inventa. Até que ele adormeça. Sonhando com palavras, personagens, vidas.

Em um dia de folga, Alzira estava indo com o filho na casa de uma amiga. Foi quando houve alguma confusão no ônibus em que estavam. E, então, ela viu que levaram o seu celular. O celular que ela mal havia começado a pagar.

A amiga disse que ela deveria ir à delegacia. Elas compraram juntas. E ela se lembra de que fizeram um seguro. Alzira foi. Foi bem atendida. O escrivão perguntou sobre o ocorrido. E ela explicou. Perguntou se houve violência ou ameaça contra ela. Ela disse que não. "Então, é furto", disse ele. A amiga que estava junto explicou que era melhor que colocasse que fora roubo, senão o seguro não cobriria. O escrivão perguntou novamente a Alzira. Ela disse: "Não posso dizer que foi uma coisa, se foi outra". O escrivão olhou para a amiga de Alzira. E para Alzira. Era apenas um detalhe. Era um celular novo. Comprado em 10 prestações. Só as duas primeiras haviam sido pagas. E agora teria que comprar outro. Bastava dizer que alguém a ameaçara com uma arma. Ninguém haveria de conferir. Ninguém ficaria sabendo.

A amiga de Alzira pediu ao escrivão que esperasse um pouco, que Alzira estava nervosa e que ela iria ajudar a amiga a se lembrar do ocorrido. Argumentou daqui, argumentou dali, Alzira ouviu atentamente. Disse-lhe a amiga que quem pagaria era uma empresa de seguro que tinha muito dinheiro, que ela ficasse tranquila. Depois de prestar muita atenção, Alzira explicou que gostaria demais que a tal seguradora pagasse, mas que não se sentia bem em mentir. A amiga voltou ao argumento de que ninguém ficaria sabendo. Foi quando Alzira concluiu: "Mas eu ficarei sabendo". Voltaram ao escrivão e Alzira, já apressada, pediu que colocasse exatamente o que acontecera. "Foi furto, sim, doutor". Saíram as duas da delegacia.

Na casa da amiga, estava Mateus, brincando com o filho dela. Alzira ficou pensando que teria que comprar rapidamente um outro celular. Não podia ficar sem. Falava com a família que mora em outro estado todos os dias. Saiu de lá como tantos para tentar uma vida melhor. E, no celular, estavam as receitas que ela pesquisava. E tinha as fotos que ela postava dos pratos tantos que elaborava com carinho. E os amigos que foi fazendo por ali.

Alzira sabe que já fez escolhas erradas na vida. O pai de Mateus foi um erro. Uma paixão que trouxe muita dor, mas que deu a ela o maior presente de sua vida, seu filho. Escolheu pessoas erradas para conviver e delas se desvencilhou. Quando olha para o passado, agradece pelo que aprendeu, mas gosta é do hoje. Da vida que tem.

Enquanto faziam bolo na cozinha, as duas conversavam. A amiga não quis mais tocar no assunto do celular. Falou apenas da insegurança das cidades, da violência que é um tormento, da injustiça que é tirarem da gente o que temos. Alzira, enquanto batia os ovos, foi ouvindo e dizendo: " Por isso que eu gosto de ver o Mateus estudando. O estudo dele ninguém rouba, nem furta, não sei o jeito certo de dizer". As duas riram. Prosseguiu Alzira: "Só sei que a gente não deve mentir".

A mãe de Alzira está doente. E é a rocha sólida da vida da família. O pai de Alzira fez a mãe sofrer muito. Mas ela não quer mais pensar nisso. Gosta de lembrar do caráter, da firmeza, dos ensinamentos corretos da mãe. Alzira ainda toma a bênção da mãe todos os dias.

Mateus veio correndo e deu um abraço nas pernas da sua mãe. E disse que estava com fome. A mãe, orgulhosa do filho, sabia que tinha muito alimento para dar ao menino. O que cozia e o que fazia. O bolo de mandioca com coco, que estava terminando, e as lições de honestidade que nunca terminam. Foi por ele, também, que ela escolheu fazer sempre o que é correto. Se há outros que não se importam com os pequenos delitos, ela se importa. Que o Mateus seja o que quiser ser, exerça a profissão que quiser exercer, mas que escolha, desde cedo, ser bom, ser honesto e ser amoroso.

A amiga diz alguma coisa sobre políticos desonestos. Alguém no rádio estava falando sobre isso. Alzira pensa que é uma tristeza alguém não usar o poder que tem para fazer o bem. Escolhas erradas.

Enquanto olha o filho com aquele abraço apertado olhando para ela e pedindo comida, ela fica com lágrimas nos olhos, de felicidade, de gratidão por ser mãe de um menino tão lindo, tão bom.

Sobre o furto do celular? Ela nem está pensando mais.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia - RJ) | Data: 30/07/2017

Vote neste item
(14 votos)

  • Email O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

Publicidade