Gratidão

Gratidão ao ano que se despede.

No amanhecer deste dia, deste último dia do ano, as águas e suas espumas sobem até as areias e limpam e refrescam e anunciam que, em instantes, voltarão. É o mar e o seu ir-e-vir. É o mar e os seus trazidos, deixando e apagando marcas.

No amanhecer deste dia, deste último dia do ano, as montanhas percebem a chegada do novo. O sol vai se espreguiçando e ganhando forças. A luz do que esverdeia desenha a esperança que inspirará os novos poetas. Há animais que barulham aqui e acolá. Cada um fazendo o som que sabe.

No amanhecer deste dia, deste último dia do ano, as grandes cidades, que não dormiram, acordam. Há movimentos ininterruptos de gentes e de ruídos. Há luzes que se acendem e há luzes que se apagam como nos vagalumes lá no campo, como nos brilhos que se vê nos clarões de sol e mar.

Uma mãe ensina ao filho que é preciso agradecer. Diz isso com a responsabilidade de quem amansa os erráticos que estão por perto para ferir. Agradecer ao que recebeu de presente, agradecer à passagem que foi dada, agradecer ao alimento que faz crescer.

Um paciente, que teve uma mãe que o ensinou a agradecer, agradece ao médico o alívio da dor, o cuidado generoso, o conhecimento despejado como forma de ação. Ora um padre na Igreja. Fala da gratidão como um valor dos que sabem que a vida é dom, que dom é presente, que presente se recebe e se agradece e se cuida. Cuida da vida de tantos a professora que agradece aos alunos pelo privilégio da troca, dos encontros, dos crescimentos comuns. Ensinar a aprender é um dos ramos mais bonitos que brotam na árvore da vida.

Agradece o agricultor que faz dos seus dias um semear. O entregador de cartas que gasta dias e dias a procurar, a encontrar. O que coze os alimentos também agradece. Olha cada prato e imagina os que hão de estar satisfeitos. E quem come agradece. O comum e o diferente. O que vem sempre e o que surpreende. Surpreendidos, agradecem aqueles que em meio ao medo recebem um salvador de vidas. Nas águas ou nas estradas que assistem acidentes. Nas casas ou nos perigos que queimam.

Agradecem os que vendem aos que vêm para comprar e os que compram aos que têm para vender. Os que precisam ir agradecem aos condutores, os que precisam permanecer agradecem aos compreensivos. Agradece o que dedica a vida ao direito, pela compreensão de que a liberdade é mais nobre do que a vingança e de que o poder é um sopro para espantar as sujeiras e não para se enlamear de vaidades.

O pai que perde o filho agradece o tempo da convivência. O que não perde agradece o tempo da responsabilidade. Terá de acompanhá-lo nas trilhas necessárias do viver.

Agradece o atleta pela chegada ao topo. Agradece o topo pela visão do que se supera. As quedas também agradecem. Cicatrizes vão compondo o mapa da nossa alma. Lágrimas aliviam delicadamente os impulsos do sentir. Os olhos agradecem às pálpebras como as palpitações agradecem ao sono. Pausas são necessárias na vida e nas partituras. Agradece o músico pela elevação que proporciona a sua profissão. O mesmo faz o artista que diz textos e que abre portas.

Portas serão abertas no ano que está pronto para chegar. Agradecem os que enxergam com os olhos ou com a alma. Onde há mar ou montanha, onde há barulho de bichos ou de gente, onde há frio ou calor, é bom agradecer. O luar presencia todos esses movimentos. Tão diferentes e tão iguais. Histórias se repetem e se renovam. Sempre há, entretanto, novidade.

Ainda no meio dos festejos de mais um ano, uma criança estará nascendo. Uma porção de crianças. Totalmente diferentes. Com uma possibilidade comum, viver, agradecer. E, no mundo animal, há mães se mexendo para abrir o mundo aos seus filhotes. E flores desmaiando seu romantismo para que o dom de surpreender também mereça agradecimento.

Olhe, ali na esquina, 2018 está chegando. Agradeça por estar vivo e por poder começar tudo de novo.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia - RJ) | Data: 31/12/2017

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