As cinzas e os dias que virão

Havia uma penteadeira com algumas gavetas que guardavam algumas fotografias. Havia também alguns livros antigos e algumas agendas de papel. No chão, ao lado da penteadeira, algumas listas de telefone. Ana não sabia por que ainda não havia jogado fora. Eram acúmulos e acúmulos em uma casa pequena. “Pequena era a vida”, pensava ela. Tudo havia passado tão depressa. Olha alguns álbuns e se recorda de algumas datas. O pai era muito religioso. Livros de oração e de novenas também foram se acumulando. Joaquim já morrera há 20 anos. “Nossa!”, assusta-se ela. Ah, o tempo!

Vê livros antigos de antigas campanhas da fraternidade. Olha para o relógio e decide que vai à missa. O pai gostava de explicar o sentido da quarta-feira de cinzas. Iam todos. O pai, a mãe, os 2 irmãos e Ana. E voltavam com o sinal na testa.

Era ainda pequena quando o pai dizia que as cinzas significam a nossa fragilidade. "Um tombo, apenas, e nossa vida, aqui na terra, termina", era o exemplo que dava o pai. "Somos frágeis", insistia ele.

Recorda-se Ana de que a expressão que se usa nesses dias é algo como isso: "Lembra que és pó e ao pó retornarás". Ela não entendia direito a relação do pó com a fragilidade humana. Nem com a história do tombo. Quando criança, achava lindo tudo o que o pai dizia e sorria para ele. Na Quaresma, tempo que se inicia na quarta-feira de cinzas e que prepara a Páscoa, acostumavam-se a fazer algum tipo de sacrifício. Não comiam carne, não bebiam. E cada um escolhia algo de que gostava muito para deixar de comer por 40 dias. Ana escolhia o chocolate, depois se arrependia, mas seguia fazendo o tal do sacrifício. O pai explicava que era para sentir a falta que sentiam aqueles que não tinham alimentos. É disso que ela se lembra. Além de outros ensinamentos bonitos do pai.

Falar mal de alguém era errado. Fazer mal para alguém, também. Se as cinzas representavam a nossa fragilidade e a necessidade de sermos humildes, os dias que seguiam tinham de ser a vivência desse ensinamento. Foi nessa família que Ana cresceu e envelheceu. A mãe morreu quando ela ainda era menina. Os irmãos tomaram o seu caminho. Encontram-se com alguma frequência, mas cada um tem a sua família. Ana não se casou. Gosta da vida que leva. Aposentou-se como secretária em uma grande empresa. Tem algumas economias, não muitas, mas o suficiente para viver com dignidade. Gosta do bairro em que vive. Gosta de andar a pé. De ir à padaria, ao mercado, à farmácia, à igreja. Hoje, tem medo da violência que vem crescendo e levando embora vidas e esperança. “Os tempos andam sombrios”, pensa ela. Falta Deus no coração das pessoas.

Ela olha para a foto do pai, novamente, e viaja para os dias passados. Rezavam antes das refeições. Rezavam antes de dormir e quando acordavam. O pai preferia ser enganado a enganar, injustiçado a praticar injustiça. Era um homem bom. Decididamente, era um homem bom. Ela se lembra disso. Coisas do passado. Coisas que não passam.

“Todos nós morreremos”, prossegue ela nos seus pensamentos. Por que, então, a arrogância, por que o desprezo ao outro, por que nos acharmos melhores?

Decide ligar para os irmãos para combinarem alguma coisa. As fotos aumentaram a saudade. Os que se foram podem ser revisitados no baú das lembranças, mas os que estão aguardam algum aceno. Na missa, rezaria pela alma dos pais. “A fé melhora as pessoas”, balbuciava ela.

Lembrou-se da tia doente. A única irmã do pai ainda viva. Amanhã mesmo faria um bolo de coco com abacaxi para adoçar o seu entardecer.

As cinzas. “Sim, as cinzas e os dias que virão”, pensa ela. “Serão melhores. Serei melhor”, decide. Sempre há tempo para melhorar. Ana fecha a gaveta e abre um sorriso lindo, lembrança de alguma história que a visitou.

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia - RJ) | Data: 18/02/2018

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