O apagar das luzes

Era um dia como outro qualquer. E a noite chegou. E, com a noite, a dor lancinante de quem perdeu o seu amor. Celina estava em pedaços. Quem já passou por isso sabe o quanto dói .

Rogério resolveu partir. E partiu partindo os mais lindos sentimentos de Celina. No dia do desfecho, só ele falou. Encheu-a de elogios, culpou-se a si mesmo, contou histórias que mais pareciam preparadas para uma saída delicada. E saiu. Ela ficou ouvindo o que ele disse, mesmo depois de ele não mais estar. E ficou ouvindo o que ele falava antes. As promessas de eternidade. O caminhar junto. A construção de uma história que atravessaria as estações e se manteria firme até o final, até o entardecer do existir dos dois.

Rogério escolheu uma outra mulher. Não foi isso o que ele disse. Foi isso o que ela entendeu.O chegar em casa, depois da tal conversa, foi difícil. As fotos ainda decoravam o ontem. Cheias de risos e de poses. Cheias de encantamento. Anos e anos de histórias. E, em um dia como outro qualquer, tudo se finda.

Celina tomou banho. Chorou o choro doído que desidrata os apaixonados. Enxugou apenas o corpo, a alma permaneceu como quis. Quisera ela ter o poder de esquecer tudo, quisera ela acender a luz e encerrar a noite de uma vez por todas. A noite tem o seu tempo. Envolta em pensamentos, não adormeceu. Uma amiga sugeriu que ela tomasse algum remédio para dormir. Preferiu resistir. Choraria o tempo certo. E depois prosseguiria.

Alguns dias se passaram. Sem conseguir se controlar, enviou algumas mensagens. Ele as respondeu, educadamente. Mas nada de esperanças.

“Há uma outra”, foi o que disse a amiga. A suspeita estava correta. Morava, Rogério, em uma casa em frente a uma praça. Era um sobrado onde tantas vezes eles fizeram amor. Pois bem, Celina resolveu ir até lá. Sentou-se em um banco onde pudesse ver sem ser vista. O entardecer já chamava a noite. Ao longe, ela viu os dois chegando. Ao longe, ela viu a luz do banheiro se acendendo. Era assim com ela também. E, de repente, o apagar das luzes. E o resto foi imaginação. Doida imaginação.

Que palavras ele estaria dizendo? Que promessas estaria fazendo? Que toques teria ela que foram mais convincentes que os seus?O choro não veio desta vez. Apenas um vazio e uma vontade de caminhar. E ela resolveu se levantar e ir. Enquanto caminhava, pensava com o luar, "Quanto tempo há de demorar para amanhecer"?

E um alívio, talvez provisório, trouxe uma brisa mansa que surpreendeu. A noite estava quente. Mas as temperaturas mudam quando menos se espera.

Já em casa, Celina arrumou-se em despedida do dia que se ia. E desejou um sono bom. O amanhã existe.

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia - RJ) | Data: 23/09/2018

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