Eram irmãos que estavam em uma fila recebendo alimento. ​Os dois eram bem pequenos, talvez com uma diferença de dois ou três anos. Não sei muito bem. ​Um estava com a perna machucada, o menor. O outro, por volta dos 7 anos, estava na fila.

O calor do dia não veio naquele dia. E o frio fazia com que a espera fosse mais incômoda. Voluntários se juntavam na tarefa de alimentar os que alimento não têm. Tudo muito organizado.

​A vida nas ruas é dura. Há muitos que julgam sem conhecer. Ninguém opta por deixar o lar e viver nas calçadas. Lembro-me de uma cena de um casal que vivia há pouco tempo na rua. Lembro-me dele dizendo que não aceitava ir para um albergue para passar a noite porque não havia albergue misto, e a ideia de dormir sem sua mulher era inconcebível. "Minha mulher é a mulher mais linda do mundo", disse aquele homem. A mulher ria, tentando esconder a timidez. E, depois de alguma conversa, quando a mulher foi sentar-se na calçada, ele, elegantemente, tirou um lenço do bolso e forrou o chão onde o seu amor iria se sentar. Romantismos difíceis de se encontrar mesmo em casas onde abundam recursos e sofisticações. ​

Já vi afetos entre moradores de rua e seus animais de estimação. ​Bem, mas é sobre os dois irmãos que se tem de escrever. ​

O pequeno, um pouco maior, chegou para pegar o alimento. Cada um tinha direito ao seu. Ele compreendeu e não tentou pegar para dois. Pediu apenas mais um prato para dividir. A senhora olhou e quis saber. Ele mostrou o irmão sentado, com a perna machucada. "É meu irmão", disse com um dizer orgulhoso, com um dizer cuidadoso. A senhora deu o prato e ficou observando. ​Ele chegou junto ao irmão e dividiu exatamente tudo o que havia no seu prato. A metade do frango. A metade da porção de arroz. Duas batatas para cada um. A metade da salada. O pão que veio junto, também foi dividido.

Letícia acorda assustada. O filho ainda não chegou. O único filho, Leonardo, teima em desafiar a vida. Letícia olha para relógio. A madrugada ainda descansa. Os barulhos são os da noite. O filho havia dito que voltaria mais cedo. Já faltou muito ao trabalho. Já não conseguira acordar na hora de acordar por seguidas vezes. Já inventara histórias para mascarar a história errática que estava vivendo.

O pai de Leonardo tinha outra família. Há muito desistira do filho. Letícia, não. Jamais desistiria do único filho.

Nos barulhos dos seus pensamentos, Letícia reza. Não sabe mais o que fazer. O filho já vive o tempo das não-autorizações. "Sou dono do meu nariz, ninguém manda em mim", repete algumas vezes.

Letícia sabe da droga. Sabe do vício que mudou para sempre o seu menino. Mas ele insiste: "Não sou viciado, paro a hora que eu quiser, só estou me divertindo". A mãe tenta argumentar. Fala dos tratamentos. Fala da necessidade de recobrar o gosto pelo futuro.

O filho dá de ombros e resmunga alguma coisa.

Letícia quer entender como tudo começou. Quer saber onde errou. Fez de tudo pelo filho. E, um dia, começou a perceber que o caminho estava torto, que as escolhas estavam erradas, que havia uma gaiola que impede o voo necessário de qualquer jovem.

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